14
fevereiro
2014

Mamografia e Mortalidade por Cancro da Mama

UTILIDADE DA MAMOGRAFIA COMO MÉTODO DE RASTREIO DO CANCRO DA MAMA

O British Medical Journal (BMJ) publicou em 11 de Fevereiro de 2014 um artigo de investigação sobre incidência e mortalidade de cancro da mama diagnosticado por mamografia de rastreio, em comparação com o rastreio baseado no exame clínico da mama.

O objectivo da mamografia de rastreio é a redução da mortalidade por cancro da mama. Está provado que tumores não palpáveis detectados pela mamografia são em média mais pequenos, e por isso associados a melhor prognóstico.

Contudo a sobrevivência específica da doença avaliada em contexto de rastreio não é preditiva de redução de mortalidade, devido aos bias estatísticos lead time bias, lenght time bias (detecção da doença mais precocemente pela nova técnica antes de ocorrência da detecção clínica, aumentando assim a sobrevida) e over-diagnosis (possibilidade de diagnosticar doença que durante o período de vida da doente não se manifestaria).

Neste artigo que se encontra disponível “on line”-http://www.bmj.com/content/348/bmj.g366.pdf%2Bhtml  - descrevem-se os resultados de um estudo randomizado de rastreio de cancro da mama por mamografia e exame clínico da mama (ECM), iniciado em 1980 em 15 instituições canadianas. De notar que todas as instituições seleccionadas e que abrangeram todas as províncias, eram hospitais académicos e/ou centros oncológicos . Foram recrutadas 89835 mulheres, que estiveram em estudo 5 anos (rastreio 5 anos), e foram seguidas até 25 anos (follow-up 6-25 anos).

Doentes de 40 a 59 anos, sem mamografia prévia no último ano, sem história de cancro da mama e não grávidas, foram randomizadas para rastreio por mamografia e exame clínico da mama anualmente versus um braço controlo de exame clínico da mama anual, realizado pelo médico assistente. A estas últimas doentes foi também enviado um questionário de follow-up anual.

A compliance no grupo da mamografia variou de 100% (1ª ano) a 86% (5ª ano) e no grupo de apenas exame clínico variou entre 89% (2ª ano) e 85% (5ª ano). As doentes diagnosticadas com cancro da mama foram rapidamente referenciadas nestas instituições a cirurgiões e oncologistas.

Os principais resultados deste estudo foram:

  • Não houve diferença significativa no número de casos de cancro de mama diagnosticados nos 2 braços do estudo durante o período de rastreio (666 casos no grupo de mamografia e 524 no grupo control) ou durante o período de follow-up (2584 casos no grupo mamografia versus 2609 casos no grupo controlo);
  • O tamanho dos tumores (T) identificados por mamografia foi significativamente menor (1.4 cm vs. 2.1 cm, p<0.001)
  • Tumores palpáveis estiveram associados a maior probabilidade de doença ganglionar positiva (N+), 34.7% vs. 16.5% (p<0.001)
  • A percentagem de over-diagnosis foi de aproximadamente ¼.
  • A Sobrevida aos 25 anos foi superior no grupo de rastreio da mamografia (70.6% vs. 62.8%; HR=0.79; 95%CI= 0.64 -0.97) e em tumores inferiores a 2 cm (77.1% vs. 54.7%; HR=0.46; 95%CI=0.37-0.58)
  • A mortalidade cumulativa por cancro da mama ou outras causas foi similar nos 2 grupos com HR 0.99 (CI95: 0.98-1.06) e 1.02 (CI95: 0.88-1.12) respectivamente.

O estudo concluiu, que, na população estudada e de acordo com a metodologia seguida, a mamografia anual não diminuiu a mortalidade por cancro da mama. O efeito na mortalidade não ultrapassou a redução que já é obtida por um exame físico apropriado ou pela excelência de cuidados médicos com impacto na sobrevivência, que permitam disponibilizar o livre acesso a toda a terapêutica adjuvante necessária para tratar, de forma adequada, o cancro da mama.

Os autores sugerem a reavaliação da mamografia como exame de rastreio nas prioridades de políticas de saúde nos países onde, no contexto do cancro da mama, se prestem cuidados médicos excelência, se garanta uma adequada educação das populações e seja possível o diagnóstico precoce da doença

Os autores entendem contudo a limitação que este estudo tem em termos de generalização destes resultados a outros países, reconhecendo que a detecção precoce pode ser muito benéfica em comunidades com percentagem elevada de tumores superiores a 2cm (T≥2) e  doença N+.

Este estudo tem que ser analisado com precaução perante resultados conflituosos na literatura, mostrando uma diminuição da mortalidade por cancro da mama pelo rastreio com mamografia. Uma das principais questões levantadas por radiologistas experts é a inferior qualidade da técnica de mamografia realizada à data do estudo. Não é claro também a percentagem de  cross-over realizado do estudo, havendo registos de doentes do braço de exame clinico que realizaram mamografias noutras instituições.

Por tudo isto este estudo não muda a nossa práctica.
Berta Sousa, MDMsc

Categories: Journal Club Virtual

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